CINEBARU
Mostra Sagarana de Cinema Abril-Maio 2021

Premiação #5 CineBaru 2021

2 de maio de 2021

Carta do Júri Técnico

(Fábio Rodrigues, Laydjane Macedo e coletivo Cine Barranco)

 

No livro dos abraços, obra de Eduardo Galeano, o autor faz uma celebração às contradições dizendo: “Desamarrar as vozes, dessonhar os sonhos: escrevo querendo revelar o real maravilhoso, e descubro o real maravilhoso no exato centro do real horroroso da América”. 

Por múltiplas vias o prêmio de melhor filme tem a ver com esse texto e, em alguma medida, com esse autor. Dizemos isto porque dividimos o prêmio e ao invés de um, escolhemos dois curtas-metragens para premiarmos como melhores filmes desta 5ª edição da Mostra Sagarana de Cinema, a CineBaru. 

Em ambas as obras, o real maravilhoso dos corpos em luta, da reescrita da história e da elaboração das dores, confronta o real horroroso de um Brasil desigual, violento e que almeja tão somente a monocultura. 

Premiamos os filmes Reduto e Sonhos no chão, sementes da educação, pois ambos oferecem uma pedagogia da luta, seja no tato com os arquivos de imagens que faz o primeiro ou com os testemunhos dos moradores e estudantes de uma escola injustamente destruída, que escutamos no segundo curta. A questão do território se mostra nos dois filmes como pauta decisiva para que haja educação, e o cinema se apresenta como importante aliado para esse engajamento. 

Em Reduto, o realizador Michel Santos relê a história de uma cidade, desamarrando as vozes abafadas e confrontando a repetição e destruição provocada pelo agronegócio. 

Em Sonhos no Chão, sementes da educação, roteirizado por Raquel Baster e Lucas Bois, a escola é reconstruída pelas falas, pela articulação da memória e pela resistência do campo. Esta escola que foi perversamente destruída pelo governo do Romeu Zema, em Minas Gerais, é lembrada e defendida como uma conquista e um direito. Eduardo Galeano, que dá nome a essa mesma escola, resume no texto que citamos, o gesto que se insinua em ambos os filmes: “Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos”.

Por serem ações de transformação, premiamos esses dois filmes! 

Viva o cinema no sertão!

 

MENÇÕES HONROSAS

 

Meia lata d’água na cabeça ou lagarto camuflado

O processo de tornar-se algo é tão conturbado quanto fascinante, envolve transformação e retorno. Concedemos menção honrosa a um filme que articula diferentes procedimentos narrativos na busca de investigar, reconhecer e entender os caminhos e heranças que formam o realizador dessa obra. Cantando para Xangô, o diretor e personagem reativa as forças ancestrais, costurando pela justiça as imagens de arquivo para que a luta em curso prossiga. Em busca de respostas, reencontra sua mãe – que não por acaso é mulher negra, quilombola e do Axé. Em busca da cidade em que nasceu, reconhece que as duas árvores da praça são dois Irokos, manifestações de Tempo. Eis uma lição: tornar-se algo talvez tenha a ver com reconhecer a força vital, o axé e a importância daqueles e daquelas com as quais nos encontramos ao longo da caminhada da vida. Por tudo isso, concedemos menção honrosa ao filme MEIA LATA D’ÁGUA OU LAGARTO CAMUFLADO, de Plínio Gomes. 

 

Angela

Angela tem como ponto forte seu roteiro, nos apresentando a premissa logo de cara, porém sem nos deixar perceber logo de imediato o que realmente quer dizer, e plantando pistas para serem colhidas apenas no momento exato. Por isso seu plot-twist funciona muito bem. A execução é fantástica, tudo funciona, a montagem segue exatamente o que o contexto pede nos deixando em dúvida a ponto de nos preocuparmos com a saúde da personagem, e um grande feito da direção e das atuações que nos fazem acreditar em suas personagens. Angela é um convite a olhar para as pessoas próximas da gente, em especial, as pessoas mais vividas. ninguém tá sozinho quando tem um alguém pra partilhar. Lindeza.

 

Prêmio Aquisição SescTV

Parecer equipe técnica SescTV

Trindade

“Trindade, filme que traz uma complexidade de temas no mesmo filme: terceira idade, alcoolismo, violência doméstica na infância, deficiência física, preconceito racial, preconceito de classe, machismo, religiosidade e cultura afro-brasileira, superação. Trindade incomoda e comove. Em contraponto às tragédias relatadas, o filme tem uma abordagem sensível, pondo em evidência a voz de Trindade e seu canto suave; o cuidado com que desempenha suas tarefas do cotidiano – o preparo da comida, a lida com as plantas; a conexão com o divino. A fotografia evidencia a personagem e sua coragem de se expor; sua pele, rugas, marcas de expressão. Ao final do documentário, conhecemos a neta de Trindade, cujo canto é um rap. Atropelada por um trem e pela vida, Trindade resistiu para dar origem a outras gerações, imbuídas da força de seu espírito e mais conscientes do lugar que merecem ocupar no mundo”. 

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